Cautela. Essa é a principal característica que um consumidor de notícias deve ter. Seja lá qual for o veículo de informação ou o assunto abordado, todo leitor, ouvinte ou telespectador de noticiários precisa ficar, sempre, com um pé atrás em relação ao que lê, ouve e vê.
O incêndio que atingiu parte do Instituto Butantã foi um evento cujas proporções catastróficas só podem ser verdadeiramente avaliadas e sentidas por quem vivenciava o cotidiano da instituição. Há questões graves que permeiam essa história, e que pouco foram abordadas pelos principais meios de informação.
Para ajudar a esclarecer um pouco mais o caso, o Darwiniano publica nesse espaço o relato de uma pessoa que conhece intimamente o funcionamento do Instituto Butantã e que, por razões óbvias, será mantida no anonimato:
“O Instituto Butantan sofreu no sábado, 15 de maio, uma perda irreparável. Mas isso não a tornava inevitável. O prédio, bastante antigo, precisava de manutenção urgente. Não era apenas o detector de fumaça que faltava, como divulga a imprensa. Faltava tudo: materiais, papel higiênico, segurança.
Duas semanas antes do ocorrido, um ladrão entrou no laboratório de Artrópodes e levou o notebook de um dos pós-graduandos. Entrou, teve a paciência de colocar o notebook na mala do pós-graduando e sair calmamente pela porta da frente. O prejuízo foi somente financeiro neste caso? Não. Há dados que também se perdem, mas a diretoria do Butantan nada fez a respeito.
Outra informação divulgada é que os laboratórios não tinham detectores de incêndio. Fato. Mas, além disso, não contava com brigada de incêndio e nem acesso decente para os caminhões de bombeiro, que tiveram a entrada dificultada e perderam tempo. A obra que serviria para facilitar a entrada dos caminhões iniciou-se há um ano e foi interrompida, transformando-se em uma vaga para automóveis.
No dia fatídico, os alunos foram proibidos de dar entrevistas. Por quê? Alguém se importava com a dor deles? NÃO! Isso aconteceu somente para não mostrar em rede nacional o descaso como eram tradadas a maior coleção de serpentes tropicais do mundo e a maior coleção de aranhas e escorpiões da América do Sul. Sem segurança, o acervo era cuidado da melhor forma possível pelos professores e alunos, mas deixado de lado pelo Instituto.
Agora o Instituto que colaborar. Duvido que isso vá durar. Assim que o assunto sair da mídia, os alunos serão realocados em qualquer laboratório e a reconstrução da parte física (uma vez que é impossível recuperar os animais) demorará anos. Muito obrigado, senhor diretor.”