Darwiniano

04 jun, 2009

O sexo do lagarto e a Ciência como ela é

Posted by: Darwinista In: Zoologia

Uma das coisas mais bacanas da Ciência é que ela está constantemente se reinventando. Novas descobertas, novas explicações, a todo momento um grupo de cientistas aparece com informações que podem reforçar ideias ou virar tudo de pernas pro ar. Um exemplo interessante pode ser encontrado na edição de hoje da Current Biology.

Mesmo quem não lembra muito bem das aulas de biologia na escola sabe que o sexo é determinado fundamentalmente pelo material genético presente nos cromossomos sexuais. Em várias espécies, incluida aí a nossa, os cromossomos sexuais são de dois tipos, X e Y. Machos são XY, fêmeas são XX.

Porém, já se sabia há algum tempo que em algumas espécies de répteis a temperatura ambiente também pode influenciar o sexo dos filhotes. Se em uma determinada etapa do desenvolvimento a temperatura estiver abaixo de um certo ponto crítico, o sexo do filhote é, por exemplo, masculino. Se, ao contrário, a temperatura for mais alta que a do ponto crítico, o filhote será fêmea.

Mas uma equipe de pesquisadores das Universidades de Sidney e de Canberra (Australia) descobriu um terceiro fator que pode determinar o sexo dos pequenos répteis: o tamanho do ovo! Pra ser mais exato, a quantidade de gema acumulada no ovo, o que acaba interferindo no tamanho.

A descoberta, por enquanto, se relaciona apenas ao lagarto da espécie Bassiana duperreyi, encontrado no sudeste da Austrália (clique aqui pra ver o bicho). Ovos com mais vitelo (a substância nutritiva que alimenta o embrião dentro do ovo, a popular gema) e, consequentemente, maiores, tendem a gerar lagartos fêmeas, enquanto os ovos menores geram machos.

(Clique aqui para ler o resumo do artigo)

A suspeita é que alguma substância presente no vitelo, provavelmente um hormônio sexual, influencia a determinação sexual. Ao produzir os ovos, a fêmea controlaria a quantidade de vitelo em cada ovo, regulando assim a taxa de machos e fêmeas em cada ninhada.

A chance de se encontrar esse mecanismo em outros répteis é grande. Assim como é sempre grande a chance de termos que reconsiderar tudo que sabíamos até então sobre a natureza. É aí que reside a beleza da Ciência: isso não é motivo de frustração. É motivo pra se renovar.

16 Comentários to "O sexo do lagarto e a Ciência como ela é"

1 | Cleopatra

junho 4th, 2009 at 23:31

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Excelente texto! Aprendo muito com este blog, parabéns!

2 | Nhé!

junho 5th, 2009 at 8:13

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U-hú! Agora da próxima vez que eu segurar a bolsa de alguém no busão, eu vou propor se caso eu adivinhar o que tem na marmita da pessoa, eu fico com o vitelo:D

3 | Nat

junho 5th, 2009 at 9:16

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Eu sei que a descoberta é só para um réptil, quiçá alguns répteis, mas vou passar a prestar mais atenção no tamanho das gemas do meu ovo… Comer uma futura galinha tudo bem, mas como vou sobreviver comendo o que poderia ter sido um pinto? Ui, que coisa subjetivamente esquisita… ;)

4 | Darwinista

junho 5th, 2009 at 11:13

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Cleopatra #1
Valeu!

5 | Darwinista

junho 5th, 2009 at 11:15

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Nhé! #2
Cuidado que vitelo em excesso pode fazer mal… :-)

6 | Darwinista

junho 5th, 2009 at 11:16

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Nat #3
E põe esquisita nisso… hehehe

7 | Pax

junho 5th, 2009 at 11:30

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É só com os isotérmicos?

Será que numa noite de frio, lareira, vinho etc não se geram mais meninos, ou mais meninas?

E numa noite numa pousada do Nordeste em pleno verão seria o contrário?

Fica a questão para nosso Sherlock das ciências.

——————————

Aqui tem uma galinha que está chocando bem em frente à minha janela, num pasto de amendoim forrageiro. Tenho acompanhado. Só que ontem foi o primeiro dia que geou desde que moro aqui, a partir de dezembro de 2000.

Soube que naquele inverno, de 2000, houve uma geada na região e depois nunca mais. Esse ano, ontem, precisamente, caiu uma pequena geada. Fiquei preocupado se haverá consequecia com os ovos chocos.

Já decidimos que essa galinha vai criar todos seus filhotes, não vamos apartar nada, e vamos acompanhar sua ninhada solta por todo canto. Provavelmente colocaremos nomes em todos e ninguém vai pra panela.

Bem, espero que a maioria seja fêmea, pois os frangos viram galos e aí brigam pelas cloacas quentinhas e sedudoras. Nesses casos, infelizmente, algum vira um bom sopão ou um risoto de frango caipira que aconselho.

8 | El Torero

junho 5th, 2009 at 17:32

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Por demais interessante é aquele peixe que muda de sexo conforme a ‘necessidade’ do cardume. É o Peixe Palhaço eu acho. E a Garoupa tem também algo neste sentido,não?
Abraço Darw. e parabéns.

9 | Darwinista

junho 5th, 2009 at 19:41

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Pax #7
A vantagem desses endotérmicos bípedes com telencéfalo altamente desenvolvido é que inventaram métodos que, independentemente da temperatura, impedem a gurizada de ser gerada. Abençoado seja o látex!

10 | Darwinista

junho 5th, 2009 at 19:53

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El Torero #8
Dei uma pesquisada, e tanto no palhaço quanto na garoupa acontece esse fênomeno da inversão sexual. E parece que nos dois casos são os estímulos populacionais que provocam a mudança. Só que o palhaço nasce macho e, quando necessário, se converte em fêmea, enquanto na garoupa é o contrário. Como diria um certo cara de orelhas pontudas: fascinante!
Abração, valeu pela visita!

11 | Colafina

junho 5th, 2009 at 23:41

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Darw #10
Por incrível que pareça, na espécie humana acontece muito disso também…

12 | Darwinista

junho 6th, 2009 at 10:04

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Colafina #11
Verdade, Cola. A vantagem dos peixes é que eles não precisam passar por intermináveis avaliações psicológicas nem cirurgias traumáticas… :-)

13 | cmd. Jåµë§ ßønd™

junho 6th, 2009 at 14:03

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+ muito bom esse post… Bassiana é o nome científico, certo? Tem nome vulgar?

14 | Adriana

junho 6th, 2009 at 18:17

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Olá!
me lembrei mesmo do meu professor de biologia (ou terá sido um globo repórter?), rs.
de qualquer forma, o melhor mesmo é reiterar o quanto a ciência é fonte de fascínio, que é o que fisga a nossa curiosidade pelo mundo.
Mas num cenário de aquecimento (calor) com pouca comida (ovos pequenos), vai dar o quê? rsrsrs.
Abraços

15 | Darwinista

junho 7th, 2009 at 22:17

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cmd. Jåµë§ ßønd™ #13
Valeu, James. Eu procurei pelo nome popular em português quando preparava o post, mas não achei nada. Em inglês é Three-lined skink.

16 | Darwinista

junho 7th, 2009 at 22:36

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Adriana #14
Boa pergunta. Um lagartinho hermafrodita, talvez? :-)
Abraços!

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