Darwiniano

05 ago, 2009

O caso da cartilha dos orgânicos

Posted by: Darwinista In: Transgênicos

(a partir de uma dica de Leonardo Lago)

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) lançou uma cartilha, produzida por Ziraldo, chamada Produtos Orgânicos – O Olho do Consumidor. A ideia da publicação, entre outras coisas,  é explicar ao consumidor leigo o que são produtos orgânicos, porque eles são mais interessantes e como identificá-los.

A primeira coisa incômoda na cartilha é a chancela que o Governo Federal confere a um termo, a meu ver, inadequado. Afinal, o alface cheio de agrotóxicos e o frango criado em condições estúpidas são feitos de moléculas com átomos de carbono e hidrogênio. Logo, são orgânicos também.

Mas há um trecho ainda mais problemático, e que vem gerando polêmica:

O agricultor orgânico não cultiva transgênicos porque não quer colocar em risco a diversidade de variedades que existem na natureza.

De cara, isso significa que o Governo Federal escolheu um lado no debate sobre os OGMs (organismos geneticamente modificados): eles são perigosos para o ambiente, e não devem ser cultivados. É curioso, já que o governo Lula foi bastante condescendente com a soja transgênica.

Além disso, a cartilha parte do princípio que todos os que cultivam os tais “produtos orgânicos” são bastante atualizados em relação ao assunto e, assim, como o Governo Federal, escolheram de que lado ficar.

Mas o mais complicado nessa história é que ainda não existe consenso na comunidade científica quanto aos prejuízos ambientais que o cultivo de transgênicos possam causar. Há pesquisas com resultados para todos os gostos.

Inserir uma afirmação dessas em uma publicação para o público leigo, portanto, é irresponsável, pra dizer o mínimo. E aparentemente o MAPA percebeu isso, já que o link para o download da cartilha não existe mais no site do Ministério (o que não significa que você vai ficar na curiosidade: clique aqui para ler a cartilha).

Aliás, há uma história percorrendo a rede que atribui a pressões da Monsanto, uma das maiores empresas produtoras de OGMs, a retirada do link para a cartilha, o que vem sendo negado pela própria empresa. Clique aqui para ler a nota de esclarecimento divulgada por ela.

9 Comentários to "O caso da cartilha dos orgânicos"

1 | Nhé!

agosto 5th, 2009 at 21:52

Avatar

Não quero nem saber, vou fazer aquilo sim!!

2 | Pax

agosto 6th, 2009 at 8:43

Avatar

Caro Darwinista

Se você me permite uma opinião, entendo que seria bem interessante explicar essa questão dos transgênicos e o emprego do Roundup, produto da Monsanto.

Deixa bem mais clara a discussão possível sobre o assunto.

E é o pano de fundo do assunto do post.

Abraços

3 | confettia*

agosto 6th, 2009 at 17:17

Avatar

otimo post ! tenho varios argumentos pro debate !

“organico” brasileiro, tirado diretamente do termo americano “organic” nao é melhor nem mais coerente do que o frances “biologique” que abreviamos quase sempre pra “bio” ! e a monsanto é uma empresa diabolica, que chantageia metade dos agricultures mundiais com suas sementes de merda !!
amanha colaboro, essa noite tou saindo prum fervinho aqui, nao vai dar , mesmo adorando o blogueiro !

beijos

( em tempo : a unica produçao que tenho certeza que seja realmente “bio” é a que planto no meu balcon ! mesmo assim, nao tenho controle sobre a terra que uso nos vasos…é acida como toda terra, cheia de poluiçao caida do céu ! vou acabar nao comendo mais nada, nada é 100% limpo…:-((

4 | Darwinista

agosto 6th, 2009 at 18:07

Avatar

Pax #2
Eu permito sua opinião, meu caro. E ela é muito procedente. Eu cheguei a pensar nisso enquanto redigia o post, mas achei que isso o deixaria muito extenso. O próximo post será sobre isso.

Abraços.

5 | Darwinista

agosto 6th, 2009 at 18:18

Avatar

confettia* #3
Valeu, confa! Vou esperar seus argumentos.
Só é importante que fique claro que não defendo a Monsanto. Mas acredito que, se ela quisesse, teria motivos pra reclamar da cartilha.

Beijos.

6 | Ricardo Chapola (CHAPS)

agosto 6th, 2009 at 20:15

Avatar

Prezado Darw,

os trangênicos sempre foram um assunto que me incitava muitas dúvidas, sobretudo sobre esta questão de malefícios e benefícios.

Creio eu que nem mais pessoas do próprio ramo – digo, autoridades atreladas ao assunto – saibam nos elucidar os pontos obscuros das cabeças dos leigos. Tristeza…

Grande abraço

7 | Darwinista

agosto 7th, 2009 at 11:58

Avatar

Chapola #6
Grande abraço pra você também.

8 | pedro

agosto 16th, 2009 at 10:35

Avatar

Meus dois centavos sobre a questão…

Em primeiro lugar, não vejo problema no uso da palavra “orgânico”, desde que não seja aplicada ao produto em si, mas ao modo de produção (ou seja, ao invés de produto orgânico, agricultura orgânica): sem defensivos químicos, sem hormônios de crescimento, sem antibióticos…

Em segundo, a “frase problemática”, cerne do post:

“O agricultor orgânico não cultiva transgênicos porque não quer colocar em risco a diversidade de variedades que existem na natureza.”

Eu não vejo problema algum com a frase: ela não trata dos impactos dos produtos transgênicos sobre o ambiente primário ao redor das culturas, ou aos insetos que se alimentam delas, nem mesmo às ervas daninhas que competem com elas. Ela se refere à diversidade genética das plantas cultivadas. A adoção de um cultivar transgênico em massa pode acabar com linhagens regionais e locais… e não tem jeito, as sementes transgênicas são produzidas a partir do cruzamento de algumas poucas linhagens muito produtivas, e portanto têm baixíssima diversidade genética. São um exército de clones altamente eficientes e resistentes a venenos poderosos (pelo menos no caso das RoundUp). Mas basta uma mutação num patógeno, ou um novo patógeno, e bye-bye exército.

Então, no fundo, acho que o problema não é a tecnologia do transgênico em si (por exemplo, arroz com betacaroteno é uma ótima idéia, assim como linhagens resistentes a fungos), mas como essa tecnologia vem sendo aplicada: Uma megacorporação global, fazendo a venda casada de sementes transgênicas (com baixíssima diversidade genética) e herbicidas muito danosos ao ser humano…

Essa tecnologia deveria ser desenvolvida e aplicada localmente, a fim de solucionar problemas locais, sob as condições locais, e usando a maior diversidade genética possível. Mas é claro, isso dá muito mais trabalho e não deixa ninguém rico… vamos homogeneizar o mundo!

Bom post!

Um abraço!

9 | Darwinista

agosto 17th, 2009 at 22:15

Avatar

pedro #8
Valiosos dois centavos esses.

Ainda me incomoda o termo orgânico, mesmo que aplicado apenas ao processo. Afinal, qual é o oposto disso? Cultivo inorgânico? Me parece ainda mais inadequado.

Quanto à frase: temos mesmo interpretações diferentes. Ela não me parece clara suficiente pra termos certeza que se referem apenas às variedades cultivadas. Afinal, uma das grandes preocupações dos ambientalistas é justamente com o entorno das culturas de OMGs. Mas ainda que sua intepretação seja a correta, esse não é um problema apenas dos transgênicos. Considere por exemplo a cana-de-açúcar. Hectares e mais hectares de terreno cultivado a partir de umas poucas matrizes, variabilidade baixíssima. Porque acusar apenas os transgênicos?

Agora, quanto à venda casada, como faz a Monsanto, e a aplicação da tecnologia para solucionar problemas localizados, estou plenamente de acordo.

Abraço!

Comment Form