Darwiniano

13 mai, 2009

Mata Atlântica: boas notícias e uma dúvida

Posted by: Darwinista In: Conservação

A edição de maio da Revista Pesquisa Fapesp  traz uma reportagem de Carlos Fioravanti com boas notícias sobre a Mata Atlântica.

Em primeiro lugar, novas técnicas de medição mostram que a porcentagem de cobertura vegetal preservada pode ser de aproximadamente 17 %, e não de 7 % como se pensava. Ainda é pouco, mas indica que a situação é um pouco menos grave.

Outra boa nova é o estabelecimento do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, que pretende “recuperar 15 milhões de hectares de florestas até 2050″. Por trás do Pacto estão ONGs, empresas e universidades.

Para alcançar essa meta, os envolvidos no projeto pretendem trabalhar em conjunto com proprietários de terras onde se encontram trechos de floresta. A ideia é recuperar áreas de baixa produtividade pecuária e demonstrar aos donos desses terrenos que eles podem conseguir maiores lucros com a preservação. Diz a reportagem:

“Dos 15 milhões de hectares a serem restaurados, 8 milhões são pastos de baixa produtividade”, diz Ricardo Rodrigues, coordenador da equipe que elaborou o conjunto de técnicas de restauração a serem adotadas no pacto, com base em seu trabalho à frente do Laboratório de Restauração Florestal (Lerf) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, interior paulista. “Se tirar os bois e incentivar o crescimento das matas, o proprietário rural pode ganhar três ou quatro vezes mais do que com a pecuária, ou ainda mais se agregar serviços ambientais como créditos de carbono.”

E é justamente nesse ponto que surge uma dúvida: se o convencimento para preservação passa por argumentos econômicos, como garantir que os proprietários das terras manterão o comportamento preservacionista a longo prazo? Se nos próximos anos surgirem técnicas que permitam a exploração de uma área permitindo lucros maiores que os obtidos com a conservação, o que impediria a reconfiguração dos trechos recuperados em pastos, por exemplo?

Um outro trecho da reportagem pode fornecer algumas pistas:

Apenas o cumprimento da lei poderia ampliar bastante a Mata Atlântica, lembra Calmon. O problema, ele reconhece, é que os proprietários rurais geralmente não gostam de deixar 20% de suas terras com vegetação nativa,  a chamada reserva legal, mas resistem menos em preservar ou recompor as matas ciliares, também obrigatórias por lei. “Os produtores rurais sabem que as matas ciliares são importantes”, diz ele, porque preservam rios e evitam a erosão dos solos.  Rodrigues acrescenta: “Poucos sabem que a reserva legal pode ser utilizada para produzir madeira, mel, frutas e outros produtos da floresta”.

A ver, torcer e acompanhar.

18 Comentários to "Mata Atlântica: boas notícias e uma dúvida"

1 | Churruminos

maio 13th, 2009 at 11:56

Avatar

Li essa reportagem, muito boa.
Mas tenho uma dúvida. Dentro do Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Curucutu, existem extensos campos de altitude. Há quem diga que esses campos são derivados de ações antrópicas. No entanto, uma teses de Doutorado de um aluno da USP fez um levantamento florístico dessa área e analisou também os solos da região. Foi constatado que, pela composição do solo desses campos, não seria possível uma floresta crescer ali, ou seja, são campos de altitute naturais.
Ai fica uma pegunta…Será que os autores do estudo, mostrado na reportagem, contabilizaram os campos como antrópicos ou naturais?

A tese de Doutorado foi realizado por Ricardo José F. Garcia. 2003.

2 | Pax

maio 13th, 2009 at 12:59

Avatar

Quais as oportunidades econômicas apontadas nos estudos? Confesso que não li e matéria.

Entendo que essa é realmente a grande questão. Conseguir que a mata em pé valha mais que sua derrubada. No curto, médio e longo prazo.

Tenho experiência com ecoturismo especializado e confesso que não é nada fácil. Essa experiência já tem mais de 10 anos. E ainda não paga as contas…

Vi a frase final do post “madeira, mel, frutas e outros produtos da floresta”. Lerei depois com mais calma e mandarei para meus colegas do caso acima.

mais um grande post.

3 | Catatau

maio 13th, 2009 at 13:20

Avatar

Muito interessante. O problema é bem o que vc chamou a atenção, resolver sem cair nos extremos dos créditos de carbono, ou da devastação pura e simples.

4 | nada será como antes

maio 13th, 2009 at 16:01

Avatar

Como mencionou Pax, o foco da questão é a viabilidade econômica de, realmente, a floresta mantida ser preferível ao desmatamento.

A simples afirmação de que o crescimento das matas “pode” permitir ganhos três ou quatro vezes maiores do que com o gado me parece ingênuo, porque é preciso demonstrar essa possibilidade e, principalmente, os eventuais investimentos necessários.

5 | Darwiniano

maio 13th, 2009 at 17:25

Avatar

Churruminos (11:56):
É uma dúvida importante. Vou tentar entrar em contato com o pessoal do projeto e ver se consigo uma resposta.

6 | Darwiniano

maio 13th, 2009 at 17:27

Avatar

Catatau (13:20):
Equilíbrio é sempre o melhor caminho. Valeu a visita, abraço.

7 | Giqqs

maio 13th, 2009 at 19:41

Avatar

Pax,

A grande maioria dos medicamentos que nós temos hoje são de alguma amneira derivados da biodiversidade. Veja o exemplo do Captopril. Ele têve origem em uma molécula extraída do veneno da cobra Jararaca. O pesquisador brasileiro, financiado por dinheiro público, publicou o efeito da molécula natural em um artigo científico. O captopril é um derivado sintético desta molécula natural original. E são muitos os exemplos, como o Taxol, um agente anti-câncer. Existem inseticidas a base de moléculas naturais, cosméticos, um catatau de produtos. A idéia é que se pode agregar valor à natureza através de pesquisa e desenvovlimento tecnológico. Hoje em dia, por lei, uma empresa, como a Natura, deve pagar alguma repartição dos lucros para o detentor da terra de onde coletou aqueles princípios ativos dos cosméticos. A lei atual é ruim, bem ruim, burocrática e atrapalha a pesquisa, mas está sendo revista. O que vale é a idéia de que dá sim para agregar valor à biodiversidade com invenções de produtos.

8 | ana

maio 14th, 2009 at 1:17

Avatar

Cada dia aprendo uma coisa aqui. Muito bom, Darw!

9 | Colafina

maio 14th, 2009 at 2:18

Avatar

Darw,
Valeu a dica do site da RBHA, tem um conteúdo muito bom. Apesar da navegação lenta (só comigo?), vale a pena pesquisar e aprender, aquela galeria de mapas antigos é de babar. Bem, sou suspeito em falar, tenho obsessão por atlas, então…

Valeu também a citação do CF&CG ali em cima, fiquei exibido.
Um abraço.

10 | Jorge

maio 14th, 2009 at 8:00

Avatar

e no mesmo número há uma bela reportagem sobre Darwin e o Brasil. Quem não conhece a revista não sabe o que está perdendo.

Quem é que criou a RBHA? Aonde voce indicou o site?

11 | Darwiniano

maio 14th, 2009 at 8:23

Avatar

ana (1:17):
Valeu, aninha! :-)

12 | Darwiniano

maio 14th, 2009 at 8:26

Avatar

Colafina (2:18):
O site do RBHA é muito bom mesmo, é uma das minhas fontes de consulta. Mas até hoje não tive problemas de navegação por lá. Quanto a citação, oras, você merece. Só precisa atualizar mais o blog, rapá!
Abraços.

13 | Darwiniano

maio 14th, 2009 at 8:36

Avatar

Jorge (8:00):
A matéria sobre Darwin é um belo trabalho de análise sociológica. Vale mesmo a pena ler.
O site da RBHA é citado no meu post sobre Frtiz Müller, e também está nos links aí do lado esquerdo, no item Divulgação científica. Só vou ficar devendo a resposta de quem criou a RBHA.
Abraço!

14 | Paulo Roberto Silva

maio 14th, 2009 at 11:38

Avatar

Darwinista, este tipo de parceria entre setor privado, sociedade civil e governo é a única solução possível para as questões ambientais. É nisso que acredito.

15 | Darwiniano

maio 14th, 2009 at 14:00

Avatar

Paulo (11:38):
Eu concordo contigo. Mas tem que ser feito de maneira a que nenhum dos três elementos envolvidos possa quebrar o contrato sem que haja punições pesadas.

16 | Colafina

maio 14th, 2009 at 22:34

Avatar

Jorge e Darw,
No rodapé do site da RBHA tem link para A RBHA e para O Autor, Alessandro Casagrande.

17 | Darwiniano

maio 14th, 2009 at 22:55

Avatar

Colafina (22:34):
Valeu Cola!

18 | Darwiniano » Blog Archive » A Mata Atlântica em SC, por Colafina

junho 23rd, 2009 at 0:06

Avatar

[...] estado, Santa Catarina, além de contrapontos importantes a informações que aparecem no meu post Mata Atlântica: boas notícias e uma dúvida. Segue um [...]

Comment Form