Uma das críticas mais recorrentes à ideia da evolução biológica é a de que o fênomeno não pode ser visualizado ou testado. Como o processo evolutivo demoraria milhares de anos e não poderia ser replicado em laboratório, “essa coisa toda não passa de uma teoria”.
Os adeptos dessa tese, que ainda podem ser encontrados por aí, normalmente são pessoas desinformadas e com uma certa má vontade. Mas ora, a divulgação científica serve, entre outras coisas, pra ajudar a informar e esclarecer. Vamos lá então.
Antes de tudo, é sempre bom lembrar que a noção de evolução biológica relaciona-se a duas outras, basicamente: mudança e adaptação. Evoluir, biologicamente falando, não é sinômino de melhorar, como ainda se propaga erroneamente por aí. Evoluir é ficar diferente e se adaptar ao ambiente.
Os que ainda acreditam que a evolução de um organismo demora milênios e não pode ser observada no período de uma vida humana certamente desconhecem as causas do surgimento de bactérias e vírus resistentes a drogas diversas.
“Ah, mas bactérias e vírus não contam! Quero ver isso acontecer com um ser vivo mais complexo!”, alguém poderia argumentar. Não por isso: que tal um lebiste?
Esse pequenino peixe ósseo da família Poeciliidae foi o personagem de um experimento conduzido por Swanne Gordon, pesquisadora da University of California, Riverside.
Os espécimes participantes, originários do rio Yarra, em Trinidad, foram introduzidos em uma região do rio Damier (também em Trinidad) onde não são encontrados peixes predadores dos lebistes. Outros exemplares da mesma espécie foram introduzidos, para comparação, em uma seção do mesmo rio onde os predadores estão presentes.
Os lebistes são vivíparos. Seus filhotes são lançados à própria sorte pelas fêmeas nas águas dos rios. É evidente que uma série de fatores ambientais, como predadores e intempéries, eliminam muitos desses filhotes. Além disso, as próprias fêmeas são alvos em potencial de predadores. Para aumentar a chance de sobrevivência da prole e, consequentemente, da espécie, as fêmeas liberam uma grande quantidade de novos lebistes.
Pois meros oito anos após o início do experimento, Swanne Gordon e sua equipe perceberam uma alteração na reprodução dos lebistes introduzidos na seção do rio livre de predadores: a prole passou a ser menor, e os embriões gerados, maiores. Essa mesma alteração não foi observada entre os lebistes introduzidos no ambiente com predadores.
A explicação é razoavelmente simples. Sem os predadores, houve um relaxamento da seleção natural, e os lebistes se adaptaram à nova condição ambiental. Para que gastar energia produzindo um número enorme de embriões, se a chance de sobrevivência deles é grande? Que se use essa energia em algo mais útil. Embriões maiores e melhor formados, por exemplo, que certamente são mais competitivos na luta por recursos naturais como alimento.
Para reforçar a tese de que houve adaptação, um novo experimento detectou que os descendentes dos peixes introduzidos no ambiente livre de predadores apresentavam maior taxa de sobrevivência, em um período de quatro semanas, em relação a lebistes provenientes de outros rios.
Oito anos apenas, e a adaptação por meio de uma mudança foi observada. Modificação + adaptação = evolução. Claro como as águas de um rio de Trinidad.
(Os resultados desse estudo serão publicados na edição de julho da The American Naturalist.)
