Darwiniano

15 jun, 2009

Evolução a olhos vistos

Posted by: Darwinista In: Evolução| Zoologia

Uma das críticas mais recorrentes à ideia da evolução biológica é a de que o fênomeno não pode ser visualizado ou testado. Como o processo evolutivo demoraria milhares de anos e não poderia ser replicado em laboratório, “essa coisa toda não passa de uma teoria”.

Os adeptos dessa tese, que ainda podem ser encontrados por aí, normalmente são pessoas desinformadas e com uma certa má vontade. Mas ora, a divulgação científica serve, entre outras coisas, pra ajudar a informar e esclarecer. Vamos lá então.

Antes de tudo, é sempre bom lembrar que a noção de evolução biológica relaciona-se a duas outras, basicamente: mudança e adaptação. Evoluir, biologicamente falando, não é sinômino de melhorar, como ainda se propaga erroneamente por aí. Evoluir é ficar diferente e se adaptar ao ambiente.

Os que ainda acreditam que a evolução de um organismo demora milênios e não pode ser observada no período de uma vida humana certamente desconhecem as causas do surgimento de bactérias e vírus resistentes a drogas diversas.

“Ah, mas bactérias e vírus não contam! Quero ver isso acontecer com um ser vivo mais complexo!”, alguém poderia argumentar. Não por isso: que tal um lebiste?

Esse pequenino peixe ósseo da família Poeciliidae foi o personagem de um experimento conduzido por Swanne Gordon, pesquisadora da University of California, Riverside.

Os espécimes participantes, originários do rio Yarra, em Trinidad, foram introduzidos em uma região do rio Damier (também em Trinidad) onde não são encontrados peixes predadores dos lebistes. Outros exemplares da mesma espécie foram introduzidos, para comparação, em uma seção do mesmo rio onde os predadores estão presentes.

Os lebistes são vivíparos. Seus filhotes são lançados à própria sorte pelas fêmeas nas águas dos rios. É evidente que uma série de fatores ambientais, como predadores e intempéries, eliminam muitos desses filhotes. Além disso, as próprias fêmeas são alvos em potencial de predadores. Para aumentar a chance de sobrevivência da prole e, consequentemente, da espécie, as fêmeas liberam uma grande quantidade de novos lebistes.

Pois meros oito anos após o início do experimento, Swanne Gordon e sua equipe perceberam uma alteração na reprodução dos lebistes introduzidos na seção do rio livre de predadores: a prole passou a ser menor, e os embriões gerados, maiores. Essa mesma alteração não foi observada entre os lebistes introduzidos no ambiente com predadores.

A explicação é razoavelmente simples. Sem os predadores, houve um relaxamento da seleção natural, e os lebistes se adaptaram à nova condição ambiental. Para que gastar energia produzindo um número enorme de embriões, se a chance de sobrevivência deles é grande? Que se use essa energia em algo mais útil. Embriões maiores e melhor formados, por exemplo, que certamente são mais competitivos na luta por recursos naturais como alimento.

Para reforçar a tese de que houve adaptação, um novo experimento detectou que os descendentes dos peixes introduzidos no ambiente livre de predadores apresentavam maior taxa de sobrevivência, em um período de quatro semanas, em relação a lebistes provenientes de outros rios.

Oito anos apenas, e a adaptação por meio de uma mudança foi observada. Modificação + adaptação = evolução. Claro como as águas de um rio de Trinidad.

(Os resultados desse estudo serão publicados na edição de julho da The American Naturalist.)

17 Comentários to "Evolução a olhos vistos"

1 | Fosso Cético

junho 15th, 2009 at 22:11

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I’m sure you are familiar with the idea of evolutionary leaps.

The solar system travels along its path through the via lactea.

Now and then we have to face unusual occurences. The Earth transforms itself into a snowball, we get a bigger share of cosmic rays…

Evolution seems to maintain a close relationship with the cosmos and how the Earth itself evolves across the galaxy.

It’s a big thing, but ain’t the Universe a big thing?

2 | Nhé!

junho 16th, 2009 at 8:05

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Caramba, como conseguiram monitorar um peixinho tão ‘piquinininhu’ no rio?!?
Mas muito interessante essa pesquisa. Agora, vírus, bactérias e lebistes não valem… :D

3 | Paulo Roberto Silva

junho 16th, 2009 at 9:57

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Essa história do lebiste me lembra a mosca drosófila, que tinha apenas oito cromossomos, e que foi o ponto de partido do mapeamento do genoma.

4 | Darwinista

junho 16th, 2009 at 12:16

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Fosso Cético #1
Yes, I’m familiar with it. It’s an interesting and intriguing issue, lots of good and bad ideas to explain it.
And that’s the fun: the Universe is huge, so let’s try to explain it!

5 | Darwinista

junho 16th, 2009 at 12:18

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Nhé! #2
Os peixes são coletados para análise, até que não é tão difícil.
E poxa, se lebiste não vale, então eu desisto… :-)

6 | Ricardo Leao

junho 16th, 2009 at 13:09

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Eu jah vi a descricao desse expto. no livro do Zimmerman, ou de um expto semelhante, e eh realmente um bom exemplo de uma adaptacao evolutiva em pequena escala. Nao me lembro se esse trato pode ser passado para os descendentes. Seria interessante colocar esses peixinhos de volta ao lago natural e ver se esse trato estah nos genes ou eh uma resposta adaptativa rahpida. Vc tem a referencia do artigo?

7 | Edu

junho 16th, 2009 at 15:54

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Cara!!! Mto massa! Pra mim que estou totalmente por fora, saber de um negócio desses é mto bom!

Existe algum estudo falando de projeção? Quer dizer os cientistas conseguem prever, ao mudar criaturas dos seus ambientes naturais, que tipo de mudanças provavelmente ocorrerão?

Abraço!

8 | Darwinista

junho 16th, 2009 at 18:22

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Ricardo Leao #6
O artigo é de acesso restrito, mas dá pra ler o resumo em http://www.journals.uchicago.edu/doi/abs/10.1086/599300?journalCode=an

9 | Darwinista

junho 16th, 2009 at 18:25

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Edu #7
Legal que você curtiu o artigo, cara.
Olha só, eu não conheço estudos pra te indicar que façam previsões desse tipo, mas caso encontre te envio por e-mail, ok?
Abração!

10 | Fosso Cético

junho 16th, 2009 at 21:39

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Valeu, Darwiniano. Grato pela resposta. Todo esse debate é muito interessante. Mas o que me chama a atenção, com respeito a esse thread e a sua resposta, é que a teoria dos saltos evolucionários tem a ver com a idéia de que as mudanças climáticas não são produto da atividade humana. Ou seja, há momentos na história geológica em que a Terra fica muito exposta a radiações cósmicas (a tese do Svensmark) e esfria (snowball Earth). Daí a necessidade de adaptação e a extinção de espécies. O caso do alossauro versus o ceratossauro, no Jurássico tardio, seria representativo da melhor adaptação do primeiro a condições adversas?

E por falar em esfriamento, está havendo mesmo problemas com a safra de primavera/verão no Hemisfério Norte. O governo canadense já publicou relatório mostrando a preocupação de que haverá redução na safra. Pouca, mas (para pensar de acordo com Malthus) a demanda por alimento cresce sem parar. Se a oferta não acompanha, teremos problemas. O verão na América do Norte não está muito disposto a deslanchar.

Blog do Anthony Watts (se não se incomoda):

http://wattsupwiththat.com/2009/06/15/canada-and-usa-agricultural-weather-issues-and-changes-in-our-solar-cycles/

E, enquanto isso, teremos o primeiro vinho brasileiro de bagas congeladas:

http://www.vinicolaperico.com.br/icewine.html

Não sei se é o caso de comemorar porque, se a correlação entre ciclos solares e clima na Terra é pertinente, teremos uns anos bem frios à frente. Este já está sendo.

Hora de adaptarmo-nos (eu acho).

Abs,

F.C.

11 | Darwinista

junho 16th, 2009 at 23:45

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Fosso Cético #10
Cara, contribuições sempre são bem vindas. Pode indicar os links que achar pertinentes à vontade.
Quanto à relação que você faz entre as mudanças climáticas e os saltos evolutivos, acho importante lembrar que o planeta sempre passou por inúmeras transformações, e elas são um dos elementos-chave no processo evolutivo. A origem dessas transformações, seja ela antrópica ou não, é uma questão secundária, penso eu.
Abração e, como sempre, obrigado por enriquecer o debate.

12 | Adriana

junho 16th, 2009 at 23:45

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Quando comecei a ler F.C. tive uma crise de ceticismo. rsrsrssrs.

desculpem, a verdade foi irresistível.

mas o melhor é que ele nos lembra que só os adaptados sobrevivem.

e em conversa séria, engraçadinho só é isso: engraçadinho. rs

13 | Fosso Cético

junho 17th, 2009 at 8:03

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Darwiniano,

Uma sugestão:

http://discover.itsc.uah.edu/amsutemps/execute.csh?amsutemps+002

É um gráfico excelente. Vale a pena até explorar um pouco.

Fiz a correlação entre mudança climática e evolução fazendo a referência a um determinado autor, Svensmark. Mas ele próprio não faz isso, ele tão somente trabalha com a questão climática. Quem me censurou censurou certo, por esse ângulo.

abs,

F.C.

14 | ServoDoSenhor

junho 17th, 2009 at 12:37

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A Bíblia nós dis que Ele na sua maguinitude criou todas as coisas. E se a evolução for do diabo? como pode Deus não erra aleluia mas o diabo vem pra confumdir plantar osso de dinossauto no chão

15 | Darwinista

junho 17th, 2009 at 12:51

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Fosso Cético #13
Ótima sugestão, gostei bastante de brincar com o gráfico.
Abraço.

16 | Gabriel

junho 17th, 2009 at 17:11

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Darw, o problema com os criacionistas eh que eles sujerem que nao pode ser observada a criacao de uma especie nova. Ou seja (la pela logica deles), que a evolucao pode ate vir a funcionar em especies existentes, mas que so mesmo o design inteligente pode explicar a criacao das especies.

Uma das coisas mais deliciosas sobre a evolucao que eu ja li foi sobre o olho dos vertebrados. Aqui um texto bem legal que me relembrou a historia:
http://colunas.g1.com.br/visoesdavida

[]s

17 | Darwinista

junho 17th, 2009 at 18:56

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Gabriel #16
O Visões da Vida é obrigatório. O Reinaldo é um grande jornalista, e sabe tratar com equilíbrio as questões relacionadas à evolução. Esse texto que você linkou, só pra variar, é muito bom.
Abraço!

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