Eu não havia sequer cogitado comentar a notícia, mas a dica de um camarada me fez rever a posição.
Tá lá no Google, na página inicial. As letras que formam o nome do sistema de buscas formando uma figura que faz referência à descoberta do Darwinius masillae, um fóssil com características muito semelhantes à dos lêmures.
(Clique aqui para ver fotos do fóssil e o artigo científico que o descreve)
Os responsáveis pelas aberturas estilizadas do Google certamente entraram na onda midiática que tem tratado o D. masillae como o “elo perdido”. Esse conceito, desconstruído há décadas pela comunidade científica, refere-se a um hipotético fóssil que demonstraria a ligação evolutiva entre o ser humano e primatas ditos “inferiores”.
O alarde da descoberta se deve, provavelmente, ao cientista que liderou a análise do fóssil do D. masillae, Jorn Hurum, ao afirmar que “ele é o primeiro elo com todos os humanos, o que chega mais perto de ser um ancestral direto”.
Pronto. Foi o suficiente pra que a imprensa fizesse um escândalo, afirmando que o tal “elo perdido” entre seres humanos e primatas “inferiores” poderia ter sido encontrado.
É surpreendente que ainda hoje possa se encontrar esse tipo de manchete nos veículos de comunicação. A linhagem humana é muito mais complexa do que os primeiros evolucionistas poderiam prever. A comunidade científica sabe há muito tempo que a lenda do “homem vindo do macaco” é uma falácia.
Aliás, nem mesmo o fóssil em questão, apelidado de Ida, poderia ser um bom candidato a “elo perdido”. Suas características mostram algumas semelhanças com humanos e outros primatas, como um polegar posicionado de forma a permitir a apreensão de objetos. Mas é muito pouco para situá-lo como um ancestral direto. Para Henry Gee, editor da Nature, “o fóssil não deve figurar entre as grandes descobertas recentes, como os dinossauros com penas.”
Se os veículos de comunicação querem tanto falar em “elos perdidos”, sugiro que comentem a versão para cinema do clássico seriado de TV Land of the Lost, que vai ser lançado em breve, e tem o grande Will Ferrell. Pelo menos é mais divertido.

